CERTAS COISAS DE QUEM TEM CERTA IDADE…

Luana Herek (Fev/2006)

Na casa dos 20 anos, eu costumava brincar, falando nostalgicamente: “Ah! Meus 40 anos…”. E quando perguntavam minha idade, respondia: “Tenho 25, Ah, mas quando eu chegar aos meus 40…”.
Quase como castigo para minha língua zombeteira, os 40 anos estão chegando, muito mais rápido do que eu esperava. Chegando não, (a quem eu quero enganar) chegaram! Estão batendo na minha porta, todos eles, e entrarão com tudo no próximo mês. Para mim são os 40, mas para você pode ser os 30, os 50, os 60, os 70, os 80….
A notícia veio de repente, num dia comum e silvestre. Numa consulta de rotina, minha ginecologista me deu, como se fosse à coisa mais natural do mundo, uma requisição para realizar uma mamografia. Pra que? “Quando a gente chega numa certa idade, é preciso investigar outras questões em nosso organismo”.
Na semana seguinte foi à vez do oftalmologista. A mesma história sem dó nem compaixão: um pedido de exame escabroso com a mesma justificativa, “quando a gente chega numa certa idade…”
Fiz piada, dei risada: “Cheguei numa certa idade!”.
Percebi então, que nos últimos tempos rondavam minha cabeça certas coisas que não haviam se aproximado antes, ou se haviam, eu sempre fiz questão de deixá-las na pasta de itens menos urgentes, pois teria muito tempo pela frente para lidar com elas.
Essas certas coisas, de gente que tem uma certa idade, visitam campos variados: começa com uma fútil e exagerada preocupação com a aparência (Todas aquelas coisas com nomes horrorosos: ruga, manchas e todas as “ites” e “oses” que de uma forma ou de outra, sempre estiveram ali, mas agora começam a saltar aos olhos), passa pela avaliação do que já foi feito na vida e chega fatalmente num levantamento do que está por realizar.
Uma constatação é brutal: a sensação de que o tempo é curto, “it is now or never”! Tudo com o que você flertava e ia pensando que um dia iria fazer, quando tivesse tempo, tem que ser aqui e agora! (Como Fritz Perls estava certo!).
Simplesmente porque a finitude mostra a cara. Seus pais, se estiverem por aí, começam a dar sinais de cansaço, de peso, de limitações: não querem mais dirigir em viagens longas, tem a voz mais fraca, o andar mais arrastado a conversa menos ágil.
Seus filhos estão com uma autonomia invejável (que você nem sonhava ter na idade deles) e deixam claro que logo, logo você será, na melhor das hipóteses, um ator coadjuvante, e por conseqüência, um ser livre de tantos cuidados e obrigações.
É, e você começa a ficar com medo do tempo que vai sobrar e que você poderá utilizar para fazer todas aquelas coisas que você jurou, só não fazia, porque não tinha tempo. É a queda magistral do álibi de tantos anos, que começa a desmoronar como um castelo de areia sendo levado pelas ondas. E não adianta se desesperar e tentar segurar, a areia vai escorrer por entre os seus dedos.
Por outro lado, você não precisa mais fazer muitas coisas das quais não gosta, pode se dar ao direito de escolher entre uma série de possibilidades. Não que as escolhas não estivessem sempre à disposição, mas numa “certa idade” menos coisas nos distraem.
Está armada a arapuca. Existe um intervalo angustiante entre a perda dos álibis e a re-ação. Sabemos que precisamos reagir, mas em que direção? O que realmente importa na vida?
Que pergunta difícil, de respostas inusitadas. Se nos permitimos tempo para reflexão e nos perguntamos com mais freqüência o “pra que” de nossas ações, reagimos menos compulsivamente.
Começa a emergir o vislumbre de um equilíbrio entre a disciplina do trabalho (para perseguir e atingir as metas) e a espontaneidade da criatividade no dia-a-dia (para não deixar escapar as oportunidades que se apresentam), para que tudo não se torne tão controlado que fique preso e nem tão solto que caia no descontrole. É a tensão ideal que deve estar presente no tecer do tear.
As prioridades vão se modificando, a ansiedade é menor. Não sei se menor ou se nos acostumamos mais a ela e não entramos em pânico. Descobrimos que a busca das coisas ordinárias, não são objetivos suficientes para justificar a nossa existência. E então pensamos que temos de recomeçar, fazer algo novo, que de prazer, que envolva, que faça diferença na vida das pessoas.
É preciso coragem. Coragem para não fechar os olhos diante de todas as percepções e sinais. Coragem para não jogar fora essa nova oportunidade de se rever, reinventar e refazer.
Se você está achando esse papo muito doido, ou não tem a menor idéia do que estou falando, não se preocupe, você não chegou naquela certa idade!

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