O MAL BUSCA A VERDADE

Jean Felipe Felsky

É a 23ª noite seguida que choro, mas nenhuma lágrima corre de meus olhos, não, é sempre sangue que deles vertem. Pela 23ª noite eu sinto a dor de estar morto, embora ainda vivo. Não, tampouco vivo eu estou, meus órgãos já não funcionam. Não respiro, não como e não bebo, a minha única fome é a de sangue. Depois daquele dia em que ele apareceu e bebeu de mim nada foi como antes. E o desgraçado ainda me abandonou sem sequer dar explicações e com uma terrível maldição. Não, ele me deixou com a minha fome, somente. Normalmente, eu me escondo e fujo, ninguém pode saber o que sou. Mas, hoje preciso de ajuda. Eu não posso viver e não-viver assim. Eu tinha algumas opções: ir à polícia, mas eles acabariam me prendendo e viraria pó na primeira manhã na cela. Quem sabe, poderia ir à igreja, mas, diabos, nunca acreditei na igreja ou Deus, não seria agora que me curvaria à eles. Enfim, minha esposa me abandonou me acusando de estar louco. Talvez esteja mesmo, talvez a única pessoa que possa me ajudar seja um psicólogo.
Chego no consultório da Dra Luana pouco antes das vinte horas, não podia ser mais cedo nesse verão que faz com que o dia se estenda ao máximo, mas também não poderia exigir mais tarde do que isso. Sou atendido pela própria doutora, uma mulher alta, magra, bonita, de cabelos curtos e loiros e de olhar forte e penetrante. Sorridente, me convida a entrar. Muito elegante e gentil me faz sentar. Claramente notou minha extrema palidez, mas nada comentou.
Ela inicia com perguntas normais: qual seu nome, sua idade, e logo chega na que eu justamente esperava: O que você faz?
— Eu sou um vampiro — pronuncio cada palavra correta e pausadamente e espero por sua reação. Sem hesitar ela faz algumas anotações em seu bloco de notas e prossegue com as perguntas:
— Você quer dizer que desgasta as pessoas que estão ao seu redor, sugando-lhes a energia?
— Não doutora, o que quero dizer é que rasgo-lhes a pele com meus dentes e tomo-lhes o sangue até a morte — não sei se o que mais a espantou foi a resposta em si, ou a frieza com que lhe falei.
— Doutora, não vamos poder continuar desta maneira, deixe-me lhe mostrar — Concentrando-me um pouco, faço meus caninos aparecerem e puxo as sombras de todos os cantos do aposento, tornando-o muito mais escuro. Não sei como, mas elas sempre me obedecem. Só sei que agora ela está com medo, talvez não precisasse ter feito isso, mas preciso ter certeza que ela acredita e que me leva a sério. Assim, sei que tenho sua atenção. Prossigo:
— Doutora, eu sou o que sou e faço o que digo, mas preciso de ajuda! Eu choro toda a noite, sinto uma dor incomparável, tenho fome e não posso mais sobreviver com o peso das mortes nas minhas costas!
— Mas, meu Deus, você nem deveria existir se o que você afirma for verdade. Por favor, me conte como foi o início desta tragédia, me dê detalhes. Talvez, ela ainda tenha esperanças de que eu seja apenas um maluco muito criativo. É difícil quebrar um paradigma assim tão grande, mas tenho que respondê-la, pois a verdade é a única que pode me salvar. Mandei as sombras voltarem aos seus lugares e retraí meus caninos.
— Faz 23 dias, ou melhor, noites. Era um dia comum, como tantos outros. Fiz hora extra no serviço e saí tarde da noite. No caminho para casa sentia algo estranho, mas não conseguia definir o que era. Num beco mais escuro, ele surgiu de repente e me atacou, me levou ao chão, me segurou e me puxou por uma porta no fim do beco. Era uma salinha tosca e suja, parecia um antigo depósito. Ali, ele cravou seus longos caninos em meu pescoço e bebeu de meu sangue. Eu ia morrer, eu sabia. Enfraqueci e logo fechei os olhos. Senti uma dor terrivelmente aguda no peito e vi a famosa luz branca com uma indescrítivel beleza. Sentia que estava prestes a deixar meu corpo, quando ele lentamente cortou seus pulsos e me deu de beber. Senti outra dor agonizante, muito mais forte. A luz começou a sumir lentamente, minha alma ainda tentava alcançá-la, mas era como se a dor que sentia mantivesse-a presa ao meu corpo. Parece que fiquei uma eternidade ali; toda minha vida passava em flashes diante dos meus olhos. Finalmente, a dor venceu. Senti minha alma subitamente voltar ao meu corpo. A luz sumiu e, com uma sensação imensa de tristeza, acordei. Levantei, agora como vampiro. Estava só. O desgraçado que fizera isso comigo desapareceu. Sai daquele beco imundo e vi o mundo com novos olhos. Tudo era maravilhosamente lindo; o reflexo da luz na poça, as minúsculas gotículas de chuva e até a placa do carro que eu conseguia ler a quase três quarteirões de distância. Os sons da noite me inundavam e sentia o sabor da leve brisa que soprava em todo o meu corpo. Passado o deslumbramento da minha nova condição comecei a perceber que havia algo errado. Antes, não chovia e a noite estava muito abafada, nem mesmo as estrelas que antes via com tanta clareza encontrava nos céus. Não, o tempo não podia ter virado tão bruscamente assim. O que estava acontecendo eu não sabia, mas precisava voltar para casa. No caminho, uma sensação que nunca havia sentido me tomou; uma terrível sensação de tristeza, melancolia e solidão, mas muito mais intenso, quase palpável, quase física, quase como se fosse… fome. Para o meu desespero, quando cheguei em casa descobri que era exatamente a última, uma sensação que se tornou constante. Ao abrir a porta, minha esposa me aguardava, extremamente nervosa. Acusava-me de ter ficado mais de um dia fora de casa, perguntando onde estava e o que havia acontecido. Eu nada entendia, mas tudo começou a fazer sentido. Eu havia ficado um dia inteiro abandonado naquele beco e levara um dia para voltar à vida. Enfim, eu tentava explicar-lhe e ela não acreditava, mas é claro; quem iria acreditar numa história bizarra dessas? Discutimos e no meio da confusão ela se cortou, um pequenino corte, mas o suficiente para me transformar em outra pessoa. Quando vi aquela pequena gota de sangue, aquele sentimento voltou com muito mais força, me dominou e a ataquei. Eu ataquei a minha própria esposa! Não sei como ela conseguiu juntar forças para me tirar de cima dela e sangrando saiu de casa correndo, neste momento voltei a mim e chorei pela primeira vez. Naquela noite rolei minhas primeiras lágrimas de sangue. Deixei-lhe um bilhete e sumi, pois temia em atacá-la novamente. De lá para cá, vago pela noite procurando alimento e esconderijos sombrios — a psicóloga ouvia atentamente a tudo que eu dizia e fazia várias anotações. Quando viu que havia terminado meu relato, ela prosseguiu:
— Realmente é uma história e tanto, mas e as suas vítimas? Elas não são sempre fatais? Você pode não matar? Mas, mesmo assim você me disse que mata e se arrepende. Não seria mais fácil não matar e não ter do que se arrepender? Como você as escolhe e como fez para não ser pego até hoje?
— Bem, doutora, não é fácil. Quando a fome está no controle, você não para. Você quer sempre mais, aquilo te faz bem, aquilo é prazeroso. Mas, só enquanto ela está no controle, depois disso eu choro. Pensando nisso, eu tentei me enganar, escolho minhas vítimas sempre na escória, procuro por bandidos e traficantes. Pessoas que talvez aliviem um pouco mais a minha consciência, mas de qualquer maneira ainda são pessoas. Pessoas que talvez não chamem tanto a atenção da polícia e por isso eu ainda não fui pego, mas no fim é mais um ser humano que perde a vida. Eu fiz uma mãe e um pai chorarem, talvez uma esposa e alguns filhos e, com certeza, eu junto deles, todas as noites.
— Então, não mate. Este é o momento de você ficar no controle. Essa noite, meu Deus, não acredito que estou falando isso, quando você for se alimentar, procure uma pessoa como a sua esposa, uma mulher que lhe faça lembrá-la. Você não vai querer matá-la. Talvez, isso te dê forças para frear seu ímpeto e você vai aprender aos poucos como segurar essa sua terrível fome.
— Doutora, você não entende, não há força nesse mundo que pare a minha fome.
— É claro que não entendo, quantos vampiros você acha que aparecem no meu consultório? Não entendo, mas nós temos que fazer algo para você ficar melhor, para superar tudo isso. Você não pode mais ser um assassino.
Nesse momento, percebo que ela jamais poderá me ajudar, nenhum mortal poderá. Sendo assim, tudo fica claro e sei o que devo fazer. Novamente convoco as sombras e falo com firmeza, marcando bem as palavras.
— Doutora, você tem razão, você não pode me ajudar, pois não me entende. Você ouviu todos os meus segredos, mas mesmo assim não pode me ajudar. Porém, venha aqui, sei o que fazer, lhe darei os melhores meios para entender…

FIM

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