O Mal Encontra a Verdade – Parte 2 – Jean Felipe Felsky

Apresento aqui a segunda parte do conto ” O Mal Encontra a Verdade” de Jean Felipe Felsky . Jean é um autor criativo que tive a oportunidade de conhecer. Ele  nasceu em Curitiba, PR no dia 22 de Janeiro de 1985. Formou-se em ciência da computação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e apesar da formação muito técnica sempre se interessou pela literatura, em especial a de terror. Desde o tempo do colégio escreve pequenos contos e poesias como forma de expressão. Participa de grupos de literatura como a Tinta Rubra e a Sociedade dos Leitores Tortos.
Contato com o autor : jean.felsky@gmail.com

Aqui a primeira parte:

O MAL BUSCA A VERDADE

Boa Leitura!

O Mal Encontra a Verdade
Jean Felipe Felsky
— Você não se lembra? Você não se lembra?! Meu rosto, meus cabelos, meu corpo e minha voz não mudaram nada e mesmo assim você não se lembra? Que decepção. Mas, não se preocupe, vou fazer você lembrar! Sim, você vai lembrar de tudo! Faz 10 anos, exatamente hoje! Você foi ao meu consultório, fraco, patético, do mesmo jeito que te vejo agora.
— Lu… Luana? — o vampiro ensanguentado, encolhido no canto do quarto murmurou o nome daquela que seria a última pessoa que ele esperava reencontrar. A mulher de cabelos loiros e olhar penetrante sorriu.
– Ah… Que bom que está lembrando, sim, que bom! Por que eu não me esqueci. Cada um desses dias eu lembrei e esperei por este momento.
– M… mas… co… como? – Ele se esforçava para falar e tossiu sangue. Seu corpo inteiro doía e seu orgulho ferido não o deixava entender como aquela mulher de aparência frágil podia ser tão rápida e forte a ponto de lhe castigar tanto o corpo. E se fosse quem ele suspeitava e ela alegava, deveria estar morta! Ele mesmo a matara, tentando a transformar em vampiro. Ele só queria respostas e saiu de seu consultório com mais dúvidas e com um corpo que insistia em não renascer, mesmo que como vampiro.
– Como?? Ora, é simples! Você me matou, me alimentou do seu sangue e aqui estou. Não viva e não morta, exatamente como você! Mas, você é um completo tolo. Se o processo levou um dia inteiro para você por que não poderia levar mais para mim? Eu levei uma semana para voltar e você não estava lá quando despertei. Uma semana, sete dias, sem céu nem inferno. Apenas um vazio, um nada. Nenhum som e nenhuma imagem, mas a dor estava lá. A dor de querer morrer e não conseguir e a tristeza de querer viver e tampouco voltar. Somado a tudo isso, o gosto adocicado e enjoativo do seu maldito sangue na minha boca! Era só isso o que eu sentia, você consegue imaginar, não consegue? O desespero e a agonia eram minha única companhia enquanto gritos silenciosos eram minha única forma de expressão. Todas as células do meu corpo ardiam num calor intenso como se fossem uma a uma queimadas pelo próprio fogo do inferno à medida que iam se transformando no que sou agora. Este tormento durou por todo o tempo em que estive naquele torpor irreal. Enfim, quando estava pronta, acordei e finalmente compreendi a fome que você alegava enfrentar. Foi a primeira vez que me alimentei, foi de um mendingo que andava cambaleante pelo beco em que você me deixou. Seu sangue impregnado do gosto amargo da cachaça barata que ele havia bebido me trouxe à consciência novamente. Só depois de saciada, aquele desejo incontrolável me abandonou e eu tive poder sobre minhas ações novamente. Quando vi aquele corpo imóvel à minha frente eu entendi o seu sofrimento e questionamento. A ironia de tudo isso é que você realmente me deu os meios para te entender, para te ajudar. Mas, não creio que você aceitaria meus conselhos. Eu te observei esses anos e você continua o mesmo fraco e chorão de sempre. Você continua se alimentando de páreas, sustentando um falso moralismo que nem mesmo você entende! Desse modo, você se priva das melhores oportunidades, das melhores safras que a sociedade tem para nos oferecer. E o pior, agindo assim você não evolui. Você ainda acha que seu truque barato de deixar um quarto mais escuro é o máximo, mas mal sabe que, se eu assim desejar, posso criar sombras tão densas que te sufocariam, esmagariam e matariam agora mesmo! Você não sabe como usar essas sombras para te esconder, te fazendo invisível a olhos mortais. Você não sabe nada! Luana parou e encarou profundamente o vampiro a sua frente. Ele apresentava espasmos involuntários devido ao grande número de ferimentos e havia perdido tanto sangue que não conseguia se recuperar. Lentamente, deu-lhe as costas e se pôs a pensar sobre aquela noite. Ao acordar, sabia que teria de enfrentar seu criador, não podia esperar mais. Ela o rastreara e seguira por tanto tempo, de longe ela aprendera seus truques e quando já não havia mais o que aprender ela o deixou, mas sem nunca esquecê-lo. Sozinha, aprendera novos truques, a utilizar seu sangue como uma fonte extra de poder, a controlar sua fome, a matar e a não matar e como escolher. Anos se passaram até que ela o procurou novamente. Ele continuava exatamente o mesmo, não só na aparência, afinal vampiros não envelhecem, mas na essência, nas atitudes e convicções. Enfim, ele ainda chorava lágrimas de sangue noite após noite. Há dez dias ela o reencontrara e de longe apenas observava. Ele se isolara, desesperado tentava compreender sozinho o que acontecera com ele. Temia, mais do que tudo, passar pelo mesmo que havia passado com a única pessoa que tentara ajudá-lo. Não deixava ninguém se aproximar, na sua solidão procurava um sentido para aquilo tudo. Mas, agora ele não estava só, a única pessoa ciente da sua existência como vampiro estava a sua frente. E depois de alguns instantes que lhe pareceram uma eternidade, ela se virou para ele novamente.
– Olhe só para você! Como é possível você ainda não ter compreendido? A explicação  sempre esteve escancarada na sua frente. Você se depara com ela todo santo dia.
– Eu só me deparo com a morte, dia após dia, você ainda não entendeu isso?! – juntando
o pouco de força que lhe resta, o vampiro moribundo ainda tentou argumentar.
– Mas, é isso!! Você que não entende! Nós somos causadores da morte. Essa é a nossa  natureza, qualquer força que tenha nos colocado no mundo, nos fez assim. Predadores! Aceite sua natureza. Você é o caçador e não há mal nisso!
– Não! – o grito sai de sua garganta junto com mais uma tosse cheia de sangue – Eu não posso matar.
– Olhe aqui! Preste atenção, isso é o que você é agora! Não me interessa o que você era  antes! Mesmo por que você sempre foi um assassino, ou você também chorava por cada uma das vacas, frangos e peixes que morreram para que você tivesse tantas refeições! Nada mudou! Só o rebanho. Nada mais. Se te agrada, feche os olhos e veja uma vaca na hora de se alimentar, não me importo! Mas, não negue que você é um caçador. E que a humanidade é sua caça! Talvez nós até sejamos o elemento de equílibrio, que evita que a humanidade se alastre ainda mais como uma praga e destrua o mundo. Não me  importa.  A única coisa que importa é o sangue! Entregue-se a ele e viva sua nova vida! Aproveite!
– Mas…
– Não! Sem ‘mas’. Você me procurou, você queria minha opinião profissional. Agora, escute e escute bem! Esta é sua última consulta. Você não vai morrer, mesmo eu te abandonando aqui, o sangue vai te curar. Em poucos dias, você estará como novo. Mas, eu estarei por perto, observando. Você só precisa viver a sua nova vida, aceitando o que você é. Isso vai acabar com o choro e sofrimento. Mas, não se preocupe, se você não conseguir eu mesma irei acabar com eles. Ao terminar de falar, Luana se virou e começou a caminhar, mas seu paciente ainda queria mais:
– Espere…
– Não, a sua hora acabou! Espero que tenha aproveitado e entendido bem. Se nos encontrarmos novamente, não será como terapeuta e paciente. Adeus! E assim, ela saiu. Para seus próprios problemas, dúvidas, necessidades e é claro para iniciar sua vigilância.

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