PSICODIAGNÓSTICO E DIAGNÓSTICO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

Artigo Publicado na revista: Psicologia Argumento. Curitiba, v.21, n.32, p. 17-21, janeiro.

Janice Ornieski de Souza
Luana Herek
Wanda Maria Faria Giroldo

Resumo
Diversos autores foram fonte de estudo para lançarmos a reflexão sobre a complexidade, importância, utilidade e necessidade de se fazer diagnóstico psicológico no processo psicoterapêutico, buscando compreender o sofrimento humano.
A diferenciação entre os termos diagnóstico psicológico e psicodiagnóstico é descrita, assim como vários critérios que devem ser observados para se alcançar um resultado de qualidade.

Abstract
Many authors were the source of study to throw the reflexion about the complexity, importance, utility and necessity of the psychological diagnose in the psychotherapy process, trying to comprehend the human suffering.
The differentiation between these terms psychological diagnosis and psycho diagnosis is described, as well various criteria that must be observed to reach a quality result.

Na tentativa de compreender o ser humano, diferentes olhares vêm construindo a história do diagnóstico que teve início com a descrição dos afetos e humores, passou pelos testes de personalidade e inteligência chegando ao DSM. A partir daí, a importância da reflexão sobre a complexidade da questão do diagnóstico se coloca, deixando espaço para novas possibilidades.
De forma geral, os psicólogos reconhecem a importância, a utilidade e a necessidade de categorizar, de buscar semelhanças e diferenças na compreensão do sofrimento humano. Por outro lado, existe o receio em comprometer a individualidade das pessoas, classificando-as.
Muitos autores já escreveram sobre o processo do diagnóstico de diferentes formas e para diferentes fins. E ainda, existe a necessidade de esclarecer e diferenciar o termo diagnóstico, que muitas vezes se confunde com psicodiagnóstico.
De acordo com ARZENO (1995), psicodiagnóstico é diferente de diagnóstico psicológico, pois todo psicodiagnóstico pressupõe a utilização de testes, enquanto no diagnóstico psicológico esses instrumentos nem sempre são necessários ou pertinentes.
Psicodiagnóstico é um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psicológicos (input), em nível individual ou não, seja para entender problemas à luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja para classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados (output), na base dos quais são propostas soluções, se for o caso. (CUNHA, 2000, p. 26).
O objetivo do processo psicodiagnóstico segundo OCAMPO (1981), é descrever e compreender a personalidade total do paciente, os aspectos do passado, presente e futuro. É um processo limitado no tempo que enfatiza a investigação dos sintomas e as características da indicação, através de técnicas como: entrevista semidirigida, técnicas projetivas, entrevista de devolução.
Um psicodiagnóstico completo e corretamente administrado, na visão de ARZENO (1995), permite estimar o prognóstico do caso e a estratégia e/ou abordagem terapêutica mais adequada para ajudar o cliente. As entrevistas diagnósticas vinculares familiares são de grande utilidade para decidir entre a recomendação de um tratamento individual, vincular ou familiar.
O psicodiagnóstico para CUNHA (2000), deve partir de um levantamento de hipóteses a serem confirmadas ou refutadas, através de um processo pré-determinado e objetivos específicos. O processo estabelece um plano de avaliação, num tempo previamente contratado entre paciente ou responsável e o psicólogo. Este plano define os instrumentos necessários, como testes e técnicas, de que forma e quando utilizá-los, baseado nas hipóteses formuladas inicialmente.
Os dados obtidos através da bateria de testes e técnicas, deverão ser analisados, interpretados e integrados com as informações da observação, da história clínica e pessoal, chegando ao diagnóstico e prognóstico do caso. A partir daí os resultados são comunicados a quem de direito.
No processo de operacionalização CUNHA (2000), ressalta a necessidade de considerar os comportamentos específicos do psicólogo e os passos do diagnóstico de acordo com o modelo psicológico de natureza clínica.
Segundo VAN KOLCK (1984), as técnicas projetivas devem ser consideradas como um instrumento para o diagnóstico psicológico. Defende que uma técnica não vai trazer em si o diagnóstico, mas poderá representar importante contribuição. Outros procedimentos como observação e entrevistas, também devem ser considerados.
O reconhecimento da qualidade do psicodiagnóstico tem relação com a escolha adequada dos instrumentos, com a capacidade de análise e a inter-relação dos dados quantitativos e qualitativos, tendo como ponto de referência às hipóteses iniciais e os objetivos do processo. Isso aponta para a competência do profissional, que é o psicólogo clínico e é fundamental que ele consiga exercer bem essa tarefa.
Ao elaborar um psicodiagnóstico é imprescindível considerar as verdadeiras razões que motivaram o encaminhamento. Para CUNHA (2000), o processo pode ter um ou vários objetivos, dependendo dos motivos do encaminhamento, conforme resumo no quadro abaixo:

Objetivos
Especificação
Classificação simples O exame compara a amostra do comportamento do examinando com os resultados de outros sujeitos da população geral ou de grupos específicos, com condições demográficas equivalentes; esses resultados são fornecidos em dados quantitativos, classificados sumariamente como em uma avaliação de nível intelectual.
Descrição Ultrapassa a classificação simples, interpretando diferenças de escores, identificando forças e fraquezas e descrevendo o desempenho do paciente, como em uma avaliação de déficits neuropsicológicos.
Classificação nosológica Hipóteses iniciais são testadas, tomando como referência critérios diagnósticos.
Diagnóstico diferencial São investigadas irregularidades ou inconsistências do quadro sintomático, para diferenciar alternativas diagnósticas, níveis de funcionamento ou a natureza da patologia.
Avaliação compreensiva É determinado o nível de funcionamento da personalidade, são examinadas as funções do ego, em especial a de insight, condições do sistema de defesas, para facilitar a indicação de recursos terapêuticos e prever a possível resposta aos mesmos.
Entendimento dinâmico Ultrapassa o objetivo anterior, por pressupor um nível mais elevado de inferência clínica, havendo uma integração de dados com base teórica. Permite chegar a explicações de aspectos comportamentais nem sempre acessíveis na entrevista, à antecipação de fontes de dificuldades na terapia e à definição de focos terapêuticos, etc.
Prevenção Procura identificar problemas precocemente, avaliar riscos, fazer uma estimativa de forças e fraquezas do ego, de sua capacidade para enfrentar situações novas, difíceis, estressantes.
Prognóstico Determina o curso provável do caso.
Perícia forense Fornece subsídios para questões relacionadas com “insanidade”, competência para o exercício das funções de cidadão, avaliação de incapacidades ou patologias que podem se associar com infrações da lei, etc.
Fonte: Cunha, in Taborda, prado-Lima & Busnello, 1996, p.51 (reproduzido no livro Psicodiagnóstico-V com autorização da Editora)
Na visão de VAN KOLCK (1984), caminha-se cada vez mais, no sentido de chegar a um “modelo psicológico” de diagnóstico:
… essa evolução vem se processando aceleradamente nos últimos anos: em vez de buscar o(s) sintoma(s) para enquadrar em uma síndrome e dar um rótulo, procura-se chegar a uma descrição e compreensão da personalidade com ênfase na dinâmica do caso. Não devemos esquecer que a identificação de indícios patológicos e a descrição de síndromes podem auxiliar como uma linguagem conhecida sobre a qual se trabalha, mas não se pode tomá-los como rótulo. (VAN KOLCK, 1984, p. XII).
A psicologia clínica, num primeiro momento, se associa à idéia de doença, pois como coloca AUGRAS (1981), descende em linha direta da psicopatologia e não consegue disfarçar a evidência da filiação. Não haveria problema nisso se a psicologia clínica conseguisse tornar-se autônoma, se elaborasse os seus próprios conceitos e a sua linguagem específica.
Outro ponto a considerar segundo ADRADOS (1980), é a necessidade de isenção de qualquer preconceito por parte do psicoterapeuta sobre o estado de saúde do indivíduo a examinar, não forçando qualquer tipo de desajuste.
Afirma que: “… todos os seres humanos, por maior que seja seu comprometimento emocional ou mental, têm recursos de forma que, se ajudados possam vir a superar seus problemas”. (ADRADOS, 1980, p. 37).
Para essa autora existe a necessidade de olhar o ser humano inserido num contexto, num sistema socializado, dando ênfase aos aspectos positivos de sua personalidade, observando o ego e sua força, vulnerabilidade, normalidade ou patologia.
Essa perspectiva, embora muito importante, não preenche todos os requisitos necessários à prática psicoterapêutica, que exige formas de diagnóstico que auxiliem na direção da intervenção e no processo.
Em função dessa necessidade, muitos psicoterapeutas se dedicaram em buscar uma ferramenta específica que contemplasse as exigências de uma avaliação na prática clínica, agregando os objetivos psicoterapêuticos de longo prazo.
Em seu livro Processo, Diálogo e Awareness, YONTEF (1998) escreve que o termo diagnóstico teve origem em duas palavras gregas, que significam “saber” e “por meio de ou entre”. Num significado mais amplo, refere-se a distinguir ou discriminar.
Um bom diagnóstico clínico está na base de qualquer trabalho, segundo ARZENO (1995). Diagnóstico pode ser compreendido sempre que se explicita a compreensão sobre um fenômeno. Se o psicoterapeuta é consultado, fica caracterizada a existência de um problema, alguém sofre ou está incomodado e a verdadeira causa deve ser investigada.
O objetivo do diagnóstico segundo VAN KOLCK (1984), é buscar uma compreensão efetiva e humana da pessoa por meio de uma descrição dinâmica, em que a etiologia do quadro também seja considerada. Para essa autora não é objetivo do diagnóstico psicológico catalogar o sujeito, tampouco enumerar os elementos constitutivos de sua personalidade.
Diagnosticar é discernir os aspectos, características e relações que compõe um todo. “Quando procuramos ler determinado fato a partir de conhecimentos específicos, estamos realizando um diagnóstico no campo da ciência ao qual esses conhecimentos se referem”. (TRINCA, 1984, p. 01).
Identificar e explicitar o modo de existência do sujeito no seu relacionamento com o ambiente, em determinado momento, é uma forma de diagnosticar. “O diagnóstico procurará dizer em que ponto de sua existência o indivíduo se encontra e que feixe de significados ele constrói em si e no mundo”. (AUGRAS, 1981, p. 12).
O cliente manifesta a sua realidade de várias maneiras diferentes. Para AUGRAS (1981), a manifestação se dá a partir da sua fala, onde são trazidas as suas vivências, a sua história, o seu corpo, a sua estranheza, o seu fazer-se. O diagnóstico apreende o indivíduo em sua realidade e esse processo é fruto da co-autoria entre cliente e psicoterapeuta.
Diagnosticar é uma condição do conhecimento e não uma opção. Para VAN KOLCK (1984), é importante chegar a um todo integrado de significados que forneçam uma compreensão dinâmica da personalidade do indivíduo.
“O fato é que a prática e a teoria se alimentam mutuamente. Uma não se desenvolve sem a outra, não podendo haver desvinculação e nem subordinação total entre elas”. (ANCONA-LOPES, 1984, p. 10).
A prática psicológica deve ser claramente articulada a uma teoria na reflexão de ROSA (1995), que defende:

Abster-se do diagnóstico é ficar a mercê de critérios imponderáveis, do senso comum, das emoções e preconceitos, da ideologia. Tanto a teoria como suas conseqüências práticas devem ser expostas à crítica, à revisão e, se necessário, ao abandono, quando não se fizerem mais consistentes. Dessa forma a psicologia se torna uma prática regulada, regida por princípios claros. As boas intenções ou o desejo de fazer o bem não são práticas psicológicas. (ROSA, 1995, p. 62).
Muito embora, a forma e os modelos de diagnóstico se mostrem variados, o que se evidencia é a necessidade e a importância de se fazer uso do diagnóstico ou do psicodiagnóstico num trabalho psicoterapêutico.
A preocupação em preservar a singularidade de cada cliente, não os limitando a conceitos pré-estabelecidos, aparece com destaque como um ponto comum a todos os autores estudados.
Compreender como o indivíduo se desenvolve, de que maneira o seu funcionamento efetiva sua existência a partir de uma realidade fenomenológica é diagnosticar e parece ser condição necessária para o profissional auxiliar seu cliente no seu processo de conscientização, aprendizagem e mudança.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADRADOS, I. Manual de Psicodiagnóstico e Diagnóstico Diferencial. Petrópolis: Vozes, 1980.
ANCONA-LOPES, M. Contexto geral do diagnóstico psicológico. In: TRINCA, W. Diagnóstico Psicológico. São Paulo: EPU, 1984.
ARZENO, M. E. G. Psicodiagnóstico Clínico: novas contribuições. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
AUGRAS, M. O ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Petrópolis: Vozes, 1981.
CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico-V. 5a. Ed. rev. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
OCAMPO, M. L. S. O Processo Psicodiagnóstico e as técnicas projetivas. São Paulo: Martins Fontes, 1981.
ROSA, M. D. Considerações sobre a polêmica do diagnóstico na psicologia. Psicologia Revista. São Paulo, set. 1995.
TRINCA, W. Diagnóstico Psicológico. São Paulo EPU, 1984.
YONTEF, G. M. Processo, Diálogo e Awareness. São Paulo: Summus, 1998.
VAN KOLCK, O. L. Testes projetivos gráficos no diagnóstico psicológico. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária Ltda. – EPU, 1984.

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